terça-feira, mai 11

Chá de Limão
EM

#8 - Post's de um gay globalizado

A ALDEIA GLOBAL - SUBÚRBIOS E ZONAS NOBRES
Hoje estou deprimido: Acordei com o sol a entrar a jorros pela janela, um céu azul lindo e uma temperatura média de fazer inveja a metade do mundo civilizado, mas acordei deprimido e sabem porquê? Ontem ao final da tarde fui confrontado uma vez mais com o facto, de que para além se sermos o país comunitário com piores profiles no gaydar, devemos ser também a capital da Europa com as saunas em que menos se fode.
Já não nos chegava ter Paulinhos de cabeleiras louras a dirigir o país, juízes mediático que fazem musculação sem que nas suas múltiplas aparições públicas se vislumbrem músculos, Boas Merdas Villas, túneis Flops ilegais a furar indiscriminadamente a capital como se dela fosse dono, um povo topado pelo futebol e, outras tantas coisas que tais que dariam para encher páginas e páginas de situações patéticas e ridículas, como termos ainda as saunas mais pÚdicas do mundo. Nem o facto da sauna ser uma das mais ancestrais instituições de foda desabrida do mundo, faz com que nas que em Lisboa existem, os frequentadores resguardados dos olhares da mulher, do namorado, dos filhos, da mãe, do pai, dos avós, do cão, do gato e do periquito, façam aquilo que é suposto fazerem: foderem à fartazana. Em Paris as saunas começam a encher ás 10:00 horas da manhã. Em Paris, uma cadeia de saunas com dois estabelecimentos em locais diferentes da cidade, numa estratégia clara de diversificação de produto com vista a uma maior cobertura de mercado, oferece aos clientes horários complementares, conseguindo, entre os dois estabelecimentos, assegurar uma cobertura de 24 horas. Uma das delegações, muito perto do local onde era a sauna preferida de Marcel Proust, abre às 10:00 da manhã, conseguindo num dia normal de semana atingir facilmente os 50 utilizadores uma hora após a abertura.
Uma vez, no regresso de um voo nocturno intercontinental, fiz uma escala de 7 horas em Paris. Deu para tomar le petit déjeuner na cidade que acordava, tomar um duche, foder com vários gajos, entre os quais o meu BF, tomar novo duche, revisitar um dos mais bonitos museus de Paris o Musée Rodin, comprar o último Didier Eribon na secção Lesbian & Gay do Gibert Jaune e regressar a Lisboa.
Ainda recordo a primeira vez em que entrei numa sauna em Paris no início de uma tarde fria de Inverno. Dezenas e dezenas de gajos por todo o lado. Gajos altos, baixos, magros, musculados, gordos, bonitos, feios, zarolhos, novos, velhos. Gajos ponto! Muitos, sem merdas e prontos a passar à acção. Ao fim de tarde, nas saunas de Paris é difícil encontrar uma cabine vaga. Em algumas, o gajo lá dentro, sentado de frente para a porta e de pau em riste, convida abertamente os gajos que lhe agradam a entrar. Igualmente interessantes são as cabines com um gajo deitado de barriga para baixo, preservativo já aberto ao lado e frasquinho de poppers, que aguarda serenamente pelo pau anónimo que se lhe quiser espetar no cuzinho. Mas em Lisboa não, as cabines estão sempre fechadas, maranhal só no quarto escuro de quando em quando e sempre tudo mergulhado na maior escuridão. Na maior parte das vezes, nas saunas de Lisboa, os poucos frequentadores que por lá se arrastam com um ar triste, lúgubre e culpado, têm mais semelhanças com as beatas que se encontram para a celebração da palavra, que com o habitual frequentador de uma sauna. Estão a pensar agora alguns, pois é, fodemos menos mas por isso temos a taxa de HIV mais baixa da Europa. Pois, mas não é nada disso, pelo contrário, temos uma das taxas mais altas de HIV da Europa. Foda-se, até para foder somos enconados, pequeninos, acanhados, sem rasgos e inconsequentes. Afinal talvez não tenha sido à toa que o nosso primeiro e único prémio Nobel durante décadas, tenha sido ganho graças à lobotomia. A academia lá sabia!

Miguel

 
Comentários

Gostei do teu post, aliás não o achei bem por acaso pois andava a pesquisar na net sobre alguém q já tivesse frequentado saunas de lisboa e q tivesse uma opinião sobre as mesmas.Confesso q até há 2 dias nunca tinha ido a nenhuma.Realmente é tudo muito "enconado": as pessoas não falam umas com as outras, eu ainda digo "olá, como está", enfim tento criar ambiente; depois fui ter, à vez, com vários gajos com os quais troquei olhares, mas q se eu ñ falasse com eles a coisa não andava, perguntei-lhes directamente se queriam estar comigo e quando me disseram q "Sim" retorqui-lhes q ñ percebia como, senão o demonstravam... Sempre gostava de ir a uma sauna estrangeira... pq estas de lisboa, mais parecem cafés...

Comentário de: Miguel às novembro 1, 2004 01:41 AM

Pois eu gostei e bastante, no meio de toda esta lamechice pirosa, pelo menos um post que recorrendo ao humor e ironia acaba por por o dedo na ferida. É natural que quem se sinta atingido não goste mesmo nada de ouvir certas coisas.É sempre muito mais fácil escudar-nos atrás da hipocrisia moralista.

Comentário de: sunga às maio 14, 2004 01:21 AM

É de facto uma surpresa que tenha gostado do "post".Eu acho impossível...deve ser a prosápia de quem o escreve que o torna tão..hmm, nem sei dizer...mau. Quanto a isso de dizer que o estrangeiro é que bom, pois vá ao "profile" dos nórdicos e veja se realmente são melhores q os portugueses. As saunas de facto não sei, não frequento. Estou a viver no estrangeiro e sei que Portugal não é razão para depressão. A depressão deve vir de outra coisa...

Comentário de: joseph às maio 12, 2004 11:47 PM

E, surpresa das surpresas, um post "globalizado" que gostei de ler! E viva a "nobre pátria".

Comentário de: Bi The Way às maio 12, 2004 12:41 AM